5 práticas de edição que farão suas baterias chegarem impecáveis na mixagem

Vou desabafar aqui, não me levem a mal: cara, eu recebo muito material para audição, muito mesmo (estou até meio em dívida com uma galera porque a lista é grande e o tempo é curto). Mas o fato é que em 90% dessas audições, alguém me pede para analisar mixagem e/ou masterização e adivinhem, quase sempre os problemas que trazem uma sensação amadora no trabalho está relacionada a fases anteriores.

São arranjos que não preenchem bem a música, geram conflitos; timbres ruins; e PRINCIPALMENTE edição tosca… voz desafinada, coisas fora do tempo, sujeira nas tracks… BITCHO, não rola! Uma coisa puxa a outra, não dá pra chegar na mixagem e esperar um bom resultado se a matéria prima não ajuda. Isso é querer milagre.

Pode assitir vídeo de qualquer profissional que mixa em estúdio top. As tracks chegam pro cara muito prontas. “Ah, Guilherme, mas os caras lá tem tudo do bom e do melhor, por isso as tracks ficam boas…” PEEEEENNNNHHHH! Errado, amiguinho, hoje é totalmente possível ter tracks de ótima qualidade, mesmo gravando em home studio. Se suas tracks estão ruins, infelizmente, é porque está te faltando conhecimento, treino auditivo, raciocínio, bons exemplos práticos e acompanhamento. Enfim…

Neste artigo, focando na bateria, que lidera o ranking das dificuldades com edição, vou dar um norte dos cuidados que você não pode bobear. Será um guia para você pesquisar a respeito e dominar estas técnicas, ok?

Vou te explicar o que são, para que servem, qual a importância desses cuidados e te dar uma luz sobre como começar a estudar estes temas. Acredite, se você está comprometido com seu objetivo de produzir profissionalmente, você precisará dominar isso:

Correção de Tempo

De maneira geral, mesmo os ótimos músicos, aqueles acostumados com gravação, deixam uma escorregadinha aqui e ali, em termos de execução. Como o padrão comercial para música popular é exigente (desconsidere isso aqui se o seu estilo de produção cabe coisas mais orgânicas), passa a ser fundamental que tudo esteja cravadinho, no seu lugar, principalmente a  bateria que é o esqueleto da música.

Basicamente o que você precisa fazer é:

1 – Na DAW, agrupe todas as tracks da bateria (esse é um erro comum, editar track por track).
2 – Acerte o grid do seu projeto para a célula rítmica da música (geralmente é usado o padrão de semicolcheias – 1/16)

3 – Dê um bom zoom horizontal e vertical, para visualizar os picos com precisão.

4 – Corte e arraste os picos para o grid. Pode começar fazendo isso baseado apenas no bumbo e caixa.

Figura 1 – Trecho de edição de tempo de bateria. Reparem: o zoom horizontal (retângulo vermelho), o símbolo de agrupamento de tracks, o corte dos itens e o alinhamento do transiente da caixa com o grid (retângulo verde).

Limpeza de Tracks 1 – Gate

Quando você grava uma bateria, geralmente cada peça possui seu microfone, mas isso não impede que o som geral vaze em cada canal individual. Ou seja, numa track de caixa, por exemplo, você ouvirá também o restante da bateria.

Até é possível manter esses vazamentos e alguns produtores preferem, mas dentro de uma abordagem mais padrão e mais polida, podemos dizer que o “certo” é eliminá-los, mantendo o som de cada peça o mais isolado possível.

Basicamente o que você precisa fazer é regular um gate, que só permitirá que o som da peça seja ouvido, mutando os momentos dos vazamento.

Figura 2 – Trecho de edição de limpeza da track bumbo com o plugin ReaGate. Nesse momento, o volume do bumbo (barras verdes) ultrapassam o limiar estabelecido pelo Gate, indicando que ele deve liberar o som do elemento. No caso, os volumes dos vazamentos, que ficam abaixo deste limitar, são automaticamente mutados.

Limpeza de Tracks 2 – Noise Supressor

A lógica aqui é a mesma, minimizar os vazamentos. A diferença entre a ferramenta Gate e o Noise Supressor, é que o primeiro irá atuar nos vazamentos que acontecem entre as batidas, enquanto que o segundo, é uma alternativa para tentar minimizar os vazamentos que acontecem simultaneamente às batidas. Como, por exemplo, um hi hat que está vazando um pouco alto, junto à caixa.

Digo “tentar minimizar” porque nem sempre esses plugins são 100% eficientes. Então, fica o alerta, nunca confie demais na edição. Uma boa gravação é fundamental e uma boa microfonação evitará esse tipo de problema com vazamentos.

Basicamente o que você tem que fazer é buscar um bom plugin de Noise Supressor, pode tentar o Reafir (do Reaper, se usa essa DAW) ou outros externos (Drumatom, NS1)…

Figura 3 – Trecho de edição de limpeza com o plugin Drumatom da PluginAlliance. Este é um Noise Supressor dedicado à limpeza de bateria.

 

Conferência de Fases

Odeio esse termo “segredo”, porque não acho que o áudio possua grandes mistérios. O que existe é uma coleção de pequenos detalhes, que você vai juntando ao longo da caminhada. Quanto antes você aumentar seu repertório de pequenos cuidados, melhor é o seu resultado. É isso que separa os homens dos meninos.

Apesar do que falei acima, se eu fosse usar o tal termo, diria que edição de fase é um “segredo” que muita gente não conhece.

Não vou ter muito tempo para explicar a teoria da coisa, mas isso é fácil de você encontrar nos Youtube da vida. Vou falar de forma mais vulgar, pra você entender a prática: alinhar fase é você fazer duas ondas de áudio coincidirem.

Quando você tem um elemento que acontece em mais de uma track (como, por exemplo, uma caixa de bateria, que é registrada no close mic, no mic da esteira, nos overs, no room…) é preciso alinhar esses áudios. Ou seja, se um “morrinho” de uma track sobe, o da outra track relativa deve subir também, bem juntinho. Se isso acontece, você preserva o punch da batida e se não acontece, rola justamente o contrário, você perde impacto.

A treta é bem essa, muita gente não confere as fases das tracks da bateria e aí fica tudo sem pressão, apagado.

Basicamente o que você precisa fazer é dar zoom em duas tracks relativas e arrastar uma em relação a outra (se necessário, inverter a direção da fase).

Figura 4 – Trecho de conferência de fases. Repare o alinhamento entre as track Over L e Over R (Retângulo Verde).

 

Replace ou Adição de Samples

Alguns produtores consideram que esse momento está mais relacionado com a mixagem. Eu, particularmente, acho mais válido que todos os preparativos sejam realizados antes das tomadas de decisão da mixagem, em si. Por isso, enquadro a colocação de samples na fase de edição.

Por que isso rola? Verdade seja dita, porque às vezes a gravação da bateria não sai como esperamos. Gravação é um processo muito frágil. Então, quando esse é o caso (e regravar não é uma opção), a alternativa passa a ser uma substituição da track original por uma amostra pré gravada (sample). Obs: a bem dos fatos, nem sempre se usa samples para replace total, às vezes, a soma é apenas um componente de aprimoramento da track original.

Existem alguns caminhos para você utilizar samples:

  • Via plugin de replace: são plugins dedicados a essa função, você carrega seu sample ou utiliza a biblioteca original e o software se encarrega de fazer a substituição em tempo real.
  • Via emissão de nota MIDI: você pode usar alguma ferramenta que interprete as batidas e gere uma nota MIDI a partir delas (o Reagate do Reaper faz essa função, por exemplo). Feito isso, basta realizar um envio para um instrumento virtual de bateria.
  • Via manual: você pode simplesmente colocar os samples manualmente, ou utilizando algum atalho de cola automática, através de sua DAW.

Todos os mecanismos citados são válidos e funcionais.

Figura 5 – Esquema de utilização de samples através de plugins nativos do Reaper. O primeiro plugin da cadeia (ReaGate) gera uma nota MIDI específica que é enviada para um plugin sampler (ReaSamplOmatic).

Conclusões…

Agora que você já pegou o caminho e logo estará craque nas edições, seu próximo passo é saber quais os cuidados deve ter na hora de mixar uma bateria real. Se me permite vender meu peixe, sugiro que conheça o meu curso Batera Real, em que, além de ver a parte de gravação e edição super detalhada, irá conferir a mixagem de bateria em 3 diferentes estilos musicais (pop, blues e metal). Vale muita a pena, depois você me diz.

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