K System – o método de Bob Katz para o julgamento auditivo perfeito!

Hoje, vamos falar de K System, dos seus benefícios e porque acredito que finalmente ele será a bola da vez!

Bob Katz é um engenheiro de áudio e masterização, que propôs em 1999, um sistema de práticas de levelling (controle de volume no áudio), batizado por ele como K System.

Foto recente do produtor Bob Katz.

O K System, baseado na indústria cinematográfica, é uma tentativa de corrigir problemas criados na indústria musical, por falta de padronização na manipulação dos volumes das produções. Apesar de já não ser uma novidade, apenas  recentemente o K System começou a se tornar uma possibilidade. O que aconteceu é que o cenário musical mudou, bem como a forma de consumir música. Sugiram novas medições de loudness, mais precisas, algoritmos niveladores de volume entre faixas e principalmente, difusão de serviços de streaming de música (como Spotify e serviços Apple), utilizando esses recursos na gestão das músicas.

O fato é que, como o próprio Bob Katz disse em um artigo de 2013, a Loudness War começa a ser ganha. Com a difusão cada vez maior de sistemas que igualam o volume percebido das faixas, não faz mais sentido querer soar mais alto que o coleguinha. Logo, também não faz sentido detonar as faixas, com uso abusivo de recursos que prejudicam principalmente a faixa dinâmica (dynamic range) das canções. A Dynamic Range (DR) é a distância, a variação, entre os momentos mais e menos intensos de uma canção. É a alma da música. É o que cria energia e faz a música parecer uma montanha russa de emoções.

Então, finalmente, estamos diante de algo muito valioso, que é poder voltar a trabalhar com faixas de dinâmica maiores. Porém, nem tudo é alegria. É “fácil” estabelecer um equilíbrio entre elementos de uma mix quando se tem 7 dB de margem de DR. Digamos que fica tudo na cara mesmo, não há muito o que se preocupar. Mas quando essa margem dobra? O que fazer? Como não errar nos planos?

O K system pode ser a resposta. Trabalhar sempre em um volume de monitoração fixo e com um método correto de calibração, aumentará sua segurança ao estabelecer planos que funcionam; e o uso da escala K, fará com que não se perca o rumo dos controles dinâmicos da suas mix e master.

Abaixo, vou explicar mais sobre o surgimento e critérios de uso do K System  e no final, apresento um vídeo explicando como você pode se adequar ao sistema, mesmo se produz em Home Studio. O K System é solução para todos.

Breve histórico cinematográfico    

Em 1983, quando o áudio digital chegava à indústria cinematográfica, o convencionamento de uma calibração de ganho de monitoração, em valor fixo e em um parâmetro adequado, gerou benefícios, produzindo filmes de volumes consistentes entre si, com excelente faixa de dinâmica e com excelente equilíbrio entre seus elementos sonoros (diálogo, trilha, efeitos). Ao contrário do universo de rádio difusão e produção musical, que embarcaram em práticas de levelling caóticas, que marcaram o início de uma nova era da música chamada de Loudness War (Guerra de Volume). Basicamente, este conceito define uma prática competitiva para alcançar volumes finais cada vez maiores e que gradativamente vem prejudicando a qualidade da experiência auditiva.

O padrão de volume de monitoração citado acima, conhecido como sistema Dolby, é estabelecido segundo o método abaixo:

Passo 1 – Numa escala de dB especial (que chamaremos de escala Dolby), o nível RMS gerado por um pink noise (ruído rosa) deve atingir a marca de 0 dB. Esta escala se baseia na Full Scale (escala digital em que o pico máximo resistido pelo sistema tem valor de 0 dBFS) com a seguinte correlação: 0 dBFS = +20 dB Dolby.

Assim podemos dizer que na escala Dolby 0 está 20 dB abaixo do ponto máximo resistido pelo sistema, ou que temos 20 dB de headroom (20 db de margem até o sistema clipar). Bastante coisa! É essa margem que cria toda mágica da experiência auditiva de assistir a um filme numa sala de cinema.

Passo 2 – Após o passo 1, através do uso de um aparelho decibilímetro, o volume dos monitores deve ser medido e regulado, um a um (L e depois R), para uma pressão sonora (SPL) de 85 dB.

A mágica desse sistema está em detectar o ponto ideal da perspectiva auditiva humana, que faz com que os técnicos sejam tão certeiros nos seus julgamentos de mixagem e o público desfrutar de experiências prazerosas.

Logo da Dolby Digital, até hoje um padrão de qualidade de áudio para cinema, home theater e outros.

Bob Katz, ó materizadór

10 anos após a implementação do sistema Dolby nos cinemas, o áudio digital, que também tinha se tornado um padrão na produção musical e rádio difusão, caminhava totalmente livre e sem padrões. Nessa época, idos de 1993, Bob Katz já trabalhava com masterização de CDs e buscava o máximo de consistência entre seus discos. Ele já tinha manjado que o caminho era fixar um padrão de monitoração. Anos depois, ele decide traçar uma correlação do seu método com o sistema Dolby para cinema.

Sem alterar o ganho de monitoração que já vinha trabalhando, ele utilizou um decibilímetro para saber quandos dBs SPL eram gerados por um pink noise (em -20 dB Full Scale, método Dolby, lembram?). Ele chegou ao valor de 79 dB SPL ( 6 dBs abaixo dos 85 dB mágicos). Então, acreditou estar trabalhando realmente um pouco fora.

Porém, existia um detalhe nessa história, nesse período Bob estava utilizando um medidor de volume Dorrough, que faz a leitura Peak e de RMS do sistema e guiado pela margem dinâmica desse meter, finalizava suas músicas com RMS de -14 dB, mais ou menos. Resumindo, em relação ao Dolby, ele usava menos ganho nos monitores, porém trabalhava com amostras mais altas, mais volume interno. A proporção de volume interno e externo do seu próprio padrão, apesar de diferente do padrão Dolby, o mantinha na mesma região mágica dos 85 dB SPL.

O esquema acima faz a suposição de como o sistema de Bob se apresentaria se ele utilizasse o padrão Dolby: a referência do Pink Noise em -20 dB + X de ganho de monitoração = 85 dB SPL.

O esquema acima faz a suposição de como o sistema de Bob se apresentava nas suas materizações, segundo seu próprio padrão. O importante aqui é perceber que diferentes combinações de volume interno e externo podem gerar a zona mágica dos 85 dB SPL. Esta foi a base para o K System.

O que Bob percebeu foi que seu ouvido de fato buscava o ponto ideal de percepção dos 85 dBs mágicos e que havia uma relação direta entre o volume de monitoração e a compensação para se alcançar esse ponto. Dessa forma, ele constatou que estava de acordo com a região ideal para julgamento auditivo e que este era o segredo para suas masterizações agradarem tantos clientes… até ali.

Outra triste conclusão, também baseada na relação do volume externo influenciando o volume final das produções, foi que se um padrão tivesse sido definido a tempo, a Loudness War seria barrada. Este é outro princípio básico defendido por Bob. Fixando rigidamente o ganho dos monitores no início do processo e respeitando-o religiosamente, o único caminho para um volume final mais alto seria a manipulação interna do volume dos elementos. Porém, sem a opção de baixar o ganho de monitoração, produzir em alto volume representaria trabalhar num ambiente barulhento e desconfortável. Este seria um freio natural para os “dedo pesado”.

Foto do clássico meter Dorrough. A marca de plugins Waves recriou uma emulação alterando um pouco a apresentação da escala original, aproximando-a visualmente da Full Scale.

O K System

Após 1997, Bob começou a sofrer com as reclamações de seus clientes de que seus trabalhos não soavam altos e quentes o suficiente. O RMS subia e estava dada a largada da corrida pelo volume. A partir daí, o K System começou a ser desenvolvido, como uma tentativa de correção das distorções de mercado, sendo proposto em 1999. Me parece uma junção dos padrões ideais de monitoração Dolby com a medição Dorrough e ainda, um ajuste inovador, que foi a criação de 3 escalas distintas, adaptáveis para diferentes usos e baseados na demanda por uma faixa dinâmica maior ou menor. As características das escalas K são:

k 20 (0 VU = -20 dBFS = 85 SPL) – o sistema de maior headroom, ideal para material que precise de bastante faixa dinâmica, como tratamento de áudio para filmes e que serão reproduzidos em ambientes grandes e controlados, como salas de cinema.

k 14 (0 VU = -14 dBFS = 85 SPL) – o sistema de headroom intermediário, ideal para ambientes caseiros, para consumo de música popular e home theater. Uma faixa dinâmica mais restrita combina com o volume para se curtir som em casa, mantendo um bom equilíbrio dos elementos.

K 12 (o VU = -12 dBFS = 85 SPL) – o sistema de menor headroom, utilizado para facilitar as funcionalidades da rádio difusão.


Imagem retirada do artigo original de Bob Katz. Compare a diferença entre cada escala K, se reparar, elas mostram a relação inversamente proporcional entre o volume de audição x faixa dinâmica. Quanto mais baixo é o volume de monitoração, mais compressão é necessária para se manter o equilíbrio dos elementos de uma amostra sonora. Ou seja, se o volume externo é baixo, compensamos através do aumento do volume interno do sistema, diminuindo a faixa dinâmica para manter os elementos audíveis.

Assista o vídeo abaixo e veja na prática uma sugestão de plugin baseado em escala K e como utilizar um decibilímetro para calibrar seus monitores de acordo com o K System. Se tem dúvidas ou gostou desse artigo, deixe seu comentário!

 

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