Não deixe o mar te engolir – Manifesto contra “Deu Onda”.

Já vi dois vídeos analisando tecnicamente essa obra e o que percebo é que mais do que explicar o estranhamento sonoro que ela gera, existe também uma intenção de “abrir a mente da galera”. Por fim, podemos resumir que essa tentativa de criar uma virtude musical ajuda na assimilação e aceitação desse tipo de proposta.

Quero deixar claro que sou contra. Não ao estilo em si ou as questões musicais (apesar de achar esteticamente estranho), mas aos valores morais negativos que são transmitidos, apoiados na tolerância que se cria por conta de ser uma música divertida, “música pra rir com os amigos” e tudo mais.

Vale lembrar que essa música rompe duas barreiras:

– Fala explicitamente de drogas, de uma forma totalmente gratuita (quem não lembra da perseguição ao Planet Hemp, na década de 90, que trazia uma discussão muito mais profunda a respeito?). “Deu onda” não só fez “apologia” banal sem sofrer nenhum tipo de perseguição judicial, como teve total aceitação pública.

Quero deixar claro que sou a favor da legalização. Então por que a implicância, certo? Porque apesar de acreditar que o ser humano tem sim necessidades auto destrutivas, que vão além do racional e que o controle de danos é melhor que proibição, penso que abordar e propagandear o consumo de forma irresponsável é outra história.

– Usa explicitamente palavras sexuais. Talvez você ache que isso não é novidade, mas desde “a boquinha da garrafa”, viemos num caminho progressivo de clareza sobre assuntos sexuais chulos. Recentemente, chegamos a níveis absolutos de clareza sobre o tema, com “lepo lepo” e “ah safada”, mas ainda sim, existia um leve eufemismo nos termos explícitos. “Deu onda” inova com o uso de “meu pau te ama”. O chamado “proibidão” (termo derivado da percepção das imoralidades) deixou de ser proibido e agora é valor nacional.

O sexo, digamos “sujo” (selvagem, carnal, como queira chamar), também é uma válvula de escape. Por mais que seres humanos busquem troca de afeto e amor nas suas relações, todos sabemos que entre quatro paredes, um impulso meio primitivo pinta. Mais uma vez, é preciso ter maturidade e entender que essa é uma característica natural do ser humano e que não precisa de repressão. Então, mais uma vez, por que a crítica?

Simples, válvulas de escape existem na sociedade, mas não necessariamente precisam ser tidas como algo inofensivo. Não precisam ser propagandeadas. Porque quando isso é feito em larga escala, torna-se um valor moral padrão de uma sociedade. Quem não se lembra das propagandas de cigarro? Fumar é um direito individual, ele está nos bares, vemos pessoas fumando por aí, mas não está mais na televisão, na internet. Na década de 80 um artista dava entrevista em TV fumando, hoje seria absurdo. A sociedade entendeu, com o tempo, que não faz sentido jogar confete para algo tão destrutivo.

Quando lançada a Coca Cola, nas propagandas, de forma totalmente indiscriminada e negligente, anunciantes diziam que fazia bem: “Coca cola, isso faz um bem!”. Hoje marcas de fast food gastam milhões em publicidade pra tentar manter alguma imagem positiva de seus produtos. Toda uma onda fit e de melhor alimentação se criou e estamos caminhando para redução do propagandeamento desse tipo de comida. Ela vai continuar existindo, mas não quer dizer que será tida com um valor positivo da sociedade.

Compreende aonde quero chegar?

O poder de desenvolvimento de uma sociedade depende dos valores culturais, dos costumes do povo. Uma força civilizatória é extremamente importante para conter uma série de impulsos primitivos negativos e destrutivos. Todos entendem a importância dessa força em casos extremos, quando ela cria, por exemplo, um sistema de leis que combate psicóticos, como os pedófilos por aí. Infelizmente, essa força também gera alguma pressão sobre aspectos aparentemente menos danosos, como por exemplo, o tipo de música e comida que consumimos. É preciso muita maturidade para lidar com este fato e boa vontade para promover algo positivo, que ajude no sentido do desenvolvimento da nação. Isso não pode ser resolvido por governos e envolve um esforço individual, sim.

Então, peço desculpas pelo textão, mas qualquer tentativa de facilitar a assimilação de valores negativos através de música, é um desserviço artístico e social.

Para aqueles que se levantarão contra o conservadorismo, taxando esses argumentos de elitista, saiba que me identifico muito mais com o progressismo. Só não concordo em legitimar qualquer manifestação cultural, só porque ela remete a classes menos favorecidas. Até porque, na questão cultural, é justamente essa classe que mais sofre um sabotamento. Pra mim, justificar a aceitação de valores negativos, apenas porque parece democrático e justo socialmente, é de fato, fazer manutenção dos piores aspectos que a pobreza pode gerar para a sociedade.

Não é caretice ou elitismo, é questão de entender que cabe a cada cidadão a responsabilidade e o brio de dar o seu melhor, transmitir valores positivos e ter boa vontade para o desenvolvimento da nação. Mesmo que algum hábito auto destrutivo exista naturalmente, este não pode se tornar um norte social. Todos os grandes países do mundo, em algum momento (muitas vezes de crise), passaram por um processo de construção de senso de unidade e senso de pertencimento, que foi fundamental para se criar bases fortes daquela sociedade. Aqui vivemos ciclos eternos de uma atitude exploratória em todos os setores, de todos os indivíduos, um grande “salve-se quem puder”. Vale tudo em nome da sobrevivência.

Parece paranoico fazer uma análise tão profunda de que a música que ouvimos, a comida que comemos, os hábitos que cultivamos publicamente, irão definir o futuro da nação, mas ontem aqui da janela de casa, ouvi um grupo de crianças de 9 a 10 anos de idade, num aniversário, cantando “deu onda” e isso é bastante preocupante. Em mais ou menos 20 a 25 anos saímos do “segura o tchan” para “meu pau te ama”, daqui a esse tempo, qual será a mensagem que as crianças estarão cantando em suas festinhas? Que tipo adultos serão, que tipo de valores teremos?

A evolução da humanidade no sentido de aumento do poder aquisitivo, que traz sim vantagens em termos de qualidade de vida, está custando alguns valores que não se adquire com dinheiro. A cultura do consumo e do lucro, está criando um cenário de permissão excessiva para tudo e isso compromete aspectos importantes da vida humana. Ao longos dos anos, troca-se menos afeto, diminui-se a capacidade intelectual média, estimula-se impulsos primitivos perigosos e por aí vai… Uma melhora aparente, porém ilusória, que confunde até os mais engajados socialmente.

Ninguém irá se preocupar com a arte, então cabe aos artistas e profissionais do meio esse tipo de manifesto. Abraço.

Guilherme Cysne
Artista e Produtor musical

 

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