Principais erros de iniciante que você não pode mais cometer!

Pesquisando material de áudio para utilizar nos meus cursos, achei um HD externo com um projeto bastante antigo. Foi o disco de um projeto autoral meu (antes do Bongrado), no qual compus as músicas e chamei alguns amigos para participar das gravações, inclusive um vocalista (na época ainda não tinha me aventurado no canto).

Escolhi uma das músicas e ao abrir o projeto, tive bastante surpresas, boas e ruins. Decidi então escrever esse artigo com as principais falhas. Considero que muita gente possa estar cometendo as mesmas por aí. Dividi as falhas por etapas da produção (não tem masterização, porque a master foi terceirizada).  

Gravação

– Excessos de takes

Talvez seja o ponto mais marcante: a insegurança. Vou bater nessa tecla várias vezes ao longo do artigo. Não ter muita confiança me deixava tentato a buscar garantias para possíveis problemas futuros. Por exempo, gerei 3 tracks completas da voz principal e 2 da bateria.

O número de takes para se chegar nesse ponto deixa o processo de captação muito cansativo, demorado e caro, quando se está pagando horas.

– Priorizar a experiência, ao invés do timbre

Na época eu estava bastante empolgado com a montagem do meu estúdio, comprando equipamentos e tal. Num negócio que pintou, acabei pegando um amplificador válvulado de guitarra, Vox Ac4tv (que depois acabei vendendo). É um amp, apesar de ótimo, bem pequeno. Quando comprei, a minha ideia era não produzir muito barulho já que eu não tinha um bom isolamento.

Pois bem, o problema é que amps de falantes pequenos, tendem a não produzir muito corpo. É o que eu sinto nas guitarras de maneira geral, elas soam um pouquinho sem low end e eu tive que dar uma forçada de barra na mix.

Eu possuía uma ótima opção, que seria gravar as guitarras com amp virtual, mas eu não queria abrir mão de testar meu Vox… isso é muito comum, a tentação de viver uma experiência analógica/real muitas vezes prega peças em quem produz em estrutura pequena.

Edição

– Gravar tudo, editar depois.

Esse é um erro muito comum. Após gravar a bateria, eu segui com os demais instrumentos. Quando finalmente concluí a captação, parti para edição e para minha infeliz surpresa, mesmo tendo tudo bem feito e com metrônomo, ao alinhar a batera, tudo parecia fora do lugar.

A minha solução foi manter um clima mais “humano/orgânico” pra produção, mas às custas de deixar passar alguns pequenos vacilos que até hoje me incomodam.
Estou refazendo essa música para um workshop e em breve irei liberar o multitrack para vocês.

Atualmente, numa produção, eu capto bateria e edito em seguida, antes de começar os demais instrumentos. Se possível, vou gravando e editando, a cada instrumento. Isso me garante resultados de edição muito melhores e um processo muito mais ágil e menos sofrido.

Mixagem

– Excesso de tracks

Céus… que projeto complicado. Apesar de estar aparentemente organizado, com grupos e cores, a quantidade de tracks é tão grande que eu perdi um tempão entendendo a coisa. Como eu mixei esse disco? Todas as faixas estão assim, superlotadas.

Mais uma vez, por problemas de insegurança, além dos vários takes de execução, eu tinha também várias opções de timbre: gravei a voz com 2 mics diferentes (dinâmico e condenser); no baixo, tinha opção de linha pura e um som de pedal e por aí vai.

Além disso, todas as tracks renderizadas e não usadas momentaneamente, eram mantidas no projeto, caso eu tivesse cometido alguma falha e quisesse renderizar novamente. Sem contar a criação exagerada de tracks… cada bobeirinha de guitarra em uma faixa própria, com processamentos específicos, consumindo CPU e tempo (coisas que davam pra serem resumidas em uma track e não foram, por preciosismo).

Um projeto com uma navegação complicada e excesso de opções compromete seu fluxo de trabalho, te faz perder tempo, causas dúvidas demais nos seu julgamentos. Principalmente pra quem tá começando.

– Excesso de plugins

Outro erro clássico… processar exageradamente. Todas as tracks possuíam cadeias longuíssimas de plugins, muitas vezes com coisas desnecessárias, como dobras de compressores em série e outras frescuras.

Além das cadeias por track, tinha a seção de Bus FX mega extensa, com 10 Bus ou mais … cada um com alguma firula, muito além da necessidade real.

Claro, tudo isso, além de me consumir tempo e CPU, me levava para um caminho pouco prático e perigoso de excesso de manipulação. Este talvez seja o principal responsável por músicas que foram até bem gravadas estarem soando mal.

– Substituir o que tava bom.

Uma coisa que curti bastante nesse disco foram as bateras que gravei. Como não tinha sala apropriada, aluguei um estúdio, chamei um amigo baterista e fomos gravar. Fiz todas as escolhas, desde montagem, afinação, microfonação e o resultado foi bem interessante.

Porém, na mix, lá vai eu inventar moda… estava empolgado com as técnicas de replace e somas e utilizei dosagens altas de samples (praticamente uma substituição) no bumbo, caixa e até surdo, sem grandes necessidades. Sem falar da escolha dos timbres dos samples que não foi das melhores.

Hoje em dia, não tenho nada contra o uso de samples, mas nem sempre é necessário. O que soa bem, que mal tem?

Conclusão

Existiram outros erros menores, menos interessante, bem como  vacilos técnicos que eu superei com os anos e que realmente não estavam ao meu alcance na época. Diante dessa experiência de revisitar um projeto tão antigo, eu chego a algumas conclusões óbvias e outras nem tanto:

– Grave bem. Na medida do possível, tenha ótimas tracks, principalmente nos quesitos execução e timbre.

– Ouça suas tracks individualmente e em conjunto, antes de processar. Se o passo acima foi dado, a música estará soando bem e essa ouvida prévia irá te dar uma noção melhor do quanto realmente precisa manipular. Não seja “Maria vai com as outras” e saia processando só porque viu alguém fazendo

– Não fique inventando moda. Seja prático, foque em soluções simples, não fique se arrumando problemas, principalmente se é iniciante.

– Cuidado com o preciosismo, não perca tempo demais em um único projeto. Chegue logo ao final, conclua, compartilhe, pegue feedback de amigos. Quanto antes você perceber seus erros, mais cedo chegará num bom resultado. Estabeleça um tempo, por exemplo, 4 horas e obrigue-se a fechar a mix nesse período. É um ótimo exercício.

– Tente ao máximo criar confiança e desbrave cada etapa, mas se não se sentir seguro e se for um projeto sério, NÃO masterize. Esse disco foi masterizado pelo Alécio Costa e sua atenção e profissionalismo foram fundamentais para eu melhorar minhas mix em 20, 30% e aí sim, poder chegar num resultado digno. O porquê é bastante óbvio, alguém experiente, com ouvido zerado (sem os vícios de mil audições daquele trabalho), terá muito mais facilidade para indicar caminhos de correções.