Qual a RESOLUÇÃO de áudio certa para som profissional?

Muita gente cria confusões em relação à resolução de áudio e acaba cometendo enganos na hora de adquirir ou configurar uma interface para seu estúdio.

Sabemos que um sinal elétrico (provindo dos microfones ou captadores) ganha uma cópia digital para que possa ser manipulado e armazenado em computadores. Essa cópia é gerada por amostragem, ou seja, vários pedacinhos (samples) são somados dando a sensação de som contínuo aos nossos ouvidos. Como um filme que é formado por várias imagens estáticas (frames).

É a interface de áudio que faz essa CONVERSÃO do sinal elétrico para digital (e do digital para o elétrico, na reprodução) e é verdade que, em teoria, quanto mais amostras ela utiliza, melhor é a representação do som. Mas isso vai infinitamente? A resposta é não e pra resumir a história, a Física prova que já atingimos o limite, apesar de alguns puristas e mercado dizerem o contrário. Mas afinal, qual qualidade você precisa trabalhar para ter um som profissional?

Figura 1 – Um sinal elétrico é gerado a partir de um sistema de captação do som (microfone / captador) e convertido em dados de computador pela interface de áudio. Na entrada a conversão é A/D (sinal analógico para digital) e na reprodução a conversão é D/A (sinal digital para analógico).

Para compreendermos um pouco mais como é feita essa amostragem e como ela influencia nossa qualidade e demanda de áudio, precisamos conhecer os conceitos de Bit Depth (tamanho da amostra em termos de dados computacionais) e Sample Rate (quantidade de amostras por tempo).

Figura 2 – Como o nome diz o Bit Depth é medido em bits. O Bit é a menor unidade de dados armazenável e pode assumir o valor de 0 ou 1, tendo a capacidade de registrar 2 estados de algo. Pensemos em cores, por exemplo, 0 poderia representar o branco, enquanto que 1 o verde, ou seja, 1 bit tem a capacidade de representar apenas 2 cores. Com 2 bits temos a possibilidade de registrarmos 4 estados e seguindo com as cores, poderíamos ter, por exemplo: branco = 00, amarelo = 01, rosa = 10, verde = 11. Para 4 bits crescemos exponencialmente para 16 cores, em 8 bits para 256 cores, em 16 bits para 65.536 cores e assim sucessivamente. Trazendo para o universo do áudio, com um bit depth de 16 bits temos a possibilidade de 65.536 intensidades diferentes de som, dentro de uma margem de volume que vai de 0 a 96 dB, o que permite registrar, por exemplo, toda a intensidade produzida por uma orquestra, do seu som mais fraco ao mais forte.  Atualmente trabalhamos em 24 bits!

Sem complicar muito, hoje conseguimos trabalhar com bit depth de 24 bits, o que nos garante uma gama enorme de intensidades de som que pode ser registrada.  Em outras palavras, isso permite margem (0 a 144 dB) e precisão (1.67 milhões de intensidades possíveis) para representação de variação de volume dos sons.

Já o Sample Rate (número de amostras por tempo) é medido em unidade de frequência, mais precisamente o Hertz (eventos por segundos). Atualmente, conseguimos utilizar taxas a partir de 44.1 KHz (44.100 amostras por segundo) ou mais , o que nos garante a cobertura de toda faixa audível de frequência percebida pelo ouvido humano (pesquise sobre o Teorema da amostragem de Nyquist–Shannon).

Esses dois números que formam a razão 24/44.1 definem nossa resolução (nível de detalhamento), que influencia a qualidade final do áudio, bem como o tamanho dos arquivos que utilizamos. Quando digo que “conseguimos trabalhar” com essa resolução, é porque nossos computadores possuem poder de processamento suficiente para lidar com esses arquivos, que antes eram muito pesados, mas não são mais. Esse é um dos fatores que explicam o porquê dos videogames antigos terem som tão precário.

Figura 3 – correlação das diferentes taxas de conversão e o tamanho dos arquivos gerados. 1 Megabyte = 1000 kilobytes / 1 kilobyte = 1000 bytes / 1 byte = 8 bits. Ex 2 bytes (16 bits) x 44100 (amostras/seg) x 180 segundos x 2 (canais stereo) = 31.7 MB. Faça a conta para os demais.

Assim, em linhas gerais, podemos dizer que hoje a maioria esmagadora das interfaces de áudio e computadores caseiros produzem som de alta resolução para resultados profissionais.

“Mas, calma! Então isso significa que todas as interfaces que convertem a 24/44.1 produzem a mesma qualidade de áudio e tudo não passa de uma farsa do mercado?” Não é bem assim. Imagine duas guitarras, ambas podem ter condições semelhantes (6 cordas, captadores single coil, por exemplo) e produzirem som de qualidade diferente. É o que acontece com as placas, mesmo que utilizem a mesma resolução, os componentes e funcionamento podem gerar conversões mais ou menos precisas.

O papo se estende. Existem conversores que trabalham a resoluções altíssimas, existe quem defenda o uso dessas taxas, outros que acham mais confiável trabalhar com conversores de alto desempenho, mesmo que seja para uso de conversões normais, apenas por questão de confiabilidade. Mas essa é outra conversa. A questão é se é mesmo necessário investir em interfaces caras para se ter um som profissional? Essa é uma visão muito pessoal. Voltando às guitarras, é possível trabalhar profissionalmente com uma de R$ 1.200,00? Ou o mínimo aceitável seria de R$ 7.000,00? Talvez 10 mil? Tudo depende do seu contexto.

Aí vai minha humilde opinião: acho que a carreira na produção musical se dá em níveis. Se você está começando, até mesmo uma placa onboard pode te permitir trabalhar em 24/44.1 e ter um resultado profissional. Se essa for sua condição, por que não começar a produzir com o que possui? Pra mim, o que fica bastante claro é que, mesmo que você pretenda avançar em termos de investimento no seu equipamento, o piso de partida já oferece uma qualidade muito aceitável e ele é muito acessível. Todos esse papo só reforça a ideia de que conhecimento é mais importante do que equipamento. Se você tiver um ótimo guitarrista, mesmo com a guitarra barata ele irá soar profissional.

É claro que existem outros atributos e recursos que são importantes e que me fazem defender a aquisição de uma placa dedicada à produção musical (falarei disso numa outra oportunidade), mas a resolução da interface de áudio não é mais uma preocupação foco para quem está dando os primeiros passos na profissão.