Reflection Filter (Vocal Booth), vale a pena?

Pessoas produzem música em casa. Esta é uma realidade que já não dá mais pra mudar, apesar de qualquer objeção. Toda uma indústria foi criada sobre essa possibilidade, o que é fantástico, mas até que ponto podemos confiar em todas as soluções que nos oferecem?

Muitos produtos prometem contornar as limitações de uma estrutura desfavorável, entregando condições semelhantes de um estúdio grande. Seja em termos de equipamentos ou até mesmo, acústica.

Sem dúvida, um desses produtos que habitam as mentes férteis dos produtores e que geram encantamento é o Reflection Filter (RF), também chamado de Vocal Booth. Você já deve ter visto um. São estruturas (geralmente curvas) que se posicionam por trás e ao redor de um microfone, criando uma espécie de mini cabine. De maneira geral, prometem resolver os problemas acústicos na gravação de vocais, entregando tracks limpas e secas, sem influências negativas do ambiente.

Apesar de não ser um dispositivo novo, ainda existe pouco material técnico que comprove a sua eficácia. Logo, neste artigo, compartilho com vocês minha experiência pessoal e de minhas pesquisas.

A imagem acima foi retirada do site da marca SE Eletronics e mostra as multi camadas do Reflexicon Pro, um clássico da categoria. Faz a indagação publicitária “What if you don’t want to hear your room?” (“E se você não quiser ouvir o seu quarto?”).

Pra encurtar o papo, é preciso dizer que impedir um som de entrar ou sair de um ambiente não é tarefa simples e não, um RF não é eficiente em isolamento. Isolamentos envolvem uso de materiais densos e não é de se espantar que sons de tráfego urbano, por exemplo, não sejam minimizados por esse dispositivo, como alguns prometem.

De qualquer forma, prevenir vazamentos não é a função principal anunciada pelos fabricantes e sim, minimizar a influência das reflexões geradas no ambiente. Será que existe alguma eficiência nesse sentido? A resposta é sim, mas não se anime. Geralmente a redução na captação das reflexões é da ordem de poucos dBs e afeta principalmente frequências leves (500 Hz em diante).

Estas comprovações foram geradas por testes realizados na Universidade de Salford, solicitados pela revista americana Sound On Sound, numa matéria que analisava 10 diferentes dispositivos.
O intrigante, foi que para ambos os testes (de isolamento de ruídos externos e absorção de reflexões do ambiente), todos os dispositivos adicionaram alterações no som original (sem filtro), incluindo reforço de frequências médio graves (entre 250 e 400 Hz), por parte da maioria. Isso mesmo, geraram reflexões em frequências indesejáveis, ao invés de absorvê-las.

A imagem acima foi retirada da matéria citada e mostra o experimento 1 realizado na University of Salford. O experimento simulou o efeito de ruídos externos a um ambiente (como tráfego) e mediu a capacidade de diferentes reflection filters em minimizar esses sons. O gráfico mostra a diferença da pressão sonora do ruído referência com e sem cabine, em diferentes frequências. Os resultados positivos representam atenuação e os valores negativos representam ganho. Reparem que praticamente todos os dispositivos promovem aumento no volume de frequências médio graves.

A imagem acima mostra o experimento 2, em que foi medida a capacidade dos reflection filters em minimizar as reflexões geradas dentro de um ambiente. Reparem que, apesar de alguma pequena eficiência, reflexões primárias são geradas pelo próprio RF, após a emissão do impulso sonoro de referência.

Eu possuo um RF da marca SE Eletronics, comprado nos EUA e percebo que, assim como a matéria também conclui, provavelmente o efeito aparente de redução de captação de reflexões se dá pelo bloqueio da voz (com menos som emitido, menos reflexão), mas com o custo da produção de efeitos negativos (como adição de reflexões primárias e coloração indesejada). Veja o vídeo com um simples experimento que produzi que comprova esse efeito.

Moral da história, vale o investimento? Na minha opinião, NÃO. Para minimizar reverberações de frequências altas, principal efeito dos RF, a simples ocupação do ambiente com móveis pode resolver (com acréscimo de no máximo algumas espumas ou painéis de absorção). Assim, além da economia, evita-se os efeitos colaterais que podem ser gerados por esses dispositivos. Vale ressaltar que estes efeitos se agravam nos dispositivos caseiros, que NÃO possuem uma engenharia de camadas estratégicas de material absorvedor e placa de furação calculada.

Na minha opinião, a melhor forma de minimizar a influência negativa do ambiente, em Home Studio, é escolher um microfone de padrão polar adequado (cardióide, no caso), posicionando-o de costas para a região de maior reflexão do ambiente. Para se otimizar o método, pode-se utilizar algum material absorvedor atrás do cantor, reduzindo as reflexões que possam vir por trás e atingir o microfone.

Concluindo, o que posso afirmar é que acredito do fundo do coração que música de qualidade profissional pode sair de um home studio, porém, trabalhar em estruturas não projetadas exige maturidade.

Sentir-se menosprezado e tentar provar que é a mesma coisa de um grande estúdio, é perda de tempo e pode criar bastante frustração.

Meu conselho é que se respeite as limitações de uma estrutura. Nem sempre será possível desenvolver bem todas as etapas da produção. Nem sempre será possível economizar custos de todas as etapas. Às vezes, o melhor caminho é simplesmente terceirizar, ou aceitar a alternativa que está ao alcance.

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